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Era uma vez...uma internet sem velhada!

2020.10.21 06:41 theInjusticeamongus Era uma vez...uma internet sem velhada!

Eu ainda sou do tempo em que a internet era uma espécie de submundo. Um escape. Apenas os mais jovens a usavam, pouca gente a tinha instalada em casa, e ficar online, nem que fosse só por 1 horinha, dava uma pica do caralho. Era o ponto alto do dia de qualquer criança e adolescente, desfrutar da sua horinha diária de conexão. Sim, porque era caro. 1 horinha por dia ficava-te aí nuns 20 euros por mês. Não tenho bem certeza, pois não era eu que a pagava. A velhada mal sabia o que era a internet, portanto tava-se bem. Não tinhamos de ter cuidado com o que publicávamos, nem tinhamos de ler o que o gang do AVC pensava. Era uma época em que os reumatoides guardavam o lado mais sombrio dos seus pensamentos para eles mesmos. Não te podiam convidar para jogos do facebook, e tava-se bem.

Este post vai ser um pouco longo. Espero que não se aborreçam. Talvez sirva para dar a conhecer algo de novo aos mais jovens, e ajudar os mais old school a recordaros bons velhos tempos. Se possível, partilhem também experiências que tenham tido quando a internet ainda era um dinossauro.

Internet nas escolas

As escolas têm computadores com ligação à internet desde inícios e meados dos anos 90. Nos intervalos podias utilizá-los. Essa utilização consistia em fazeres uma pesquisa random num motor de busca. "Tartarugas ninja", por exemplo. Depois vias as fotos. Sem supervisão parental, pesquisavas porno. Mas basicamente era isso. Não havia mesmo muito para fazer.

Lentidão

Havia horas em que a internet não se mexia. Dependia muito da quantidade de pessoas online. Tinhas de ser estratégico. Se fosses às 9 da noite, por exemplo, podias ter de esperar 15, 20 minutos para carregar uma simples página web. Um download de 5 megas levava facilmente meia hora, e era se a net estivesse boa. 5 megas era mais ou menos uma música.

Antes do Google

Google não existiu até 98, e mesmo a sua popularidade só veio mais tarde. Portanto, aí até 2000 o que se usava era o Altavista. Yahoo também era muito popular, e em Portugal os preferidos eram o Sapo, Aeiou e Clix, para tudo, mesmo pesquisas.

Antes do Youtube

Sinceramente, eu só soube o que era streaming aí por volta de 2004. Ir a um site e ver videos online não era prática comum. Nem havia nada que fosse muito popular. Pelo menos que me lembre. O Metacafe era o mais conhecido. Era tipo Youtube, mas muito menos popular. Portanto, não havia nenhum site deste género que toda a gente usasse . Dailymotion também tornou-se popular durante um curto período de tempo. Mas ainda hoje o utilizo para encontrar videos que o Youtube remove constantemente. Aconselho a toda a gente.

Porno

Nos anos 90 era mesmo só ir a sites tipo o da Playboy e ver gajas nuas. Resumia-se a isso. Fotos de gajas. Não se usava cá sites com vídeos. Víamos umas mamas e estava a andar. Naquela época ver mamas era de loucos. Acho que hoje em dia para sentires a emoção de ver mamas na internet nos anos 90 terias de encontrar um OVNI com ET's lá dentro. A banalização matou muitas emoções.
Depois em inicios de 2000's o que havia era sites tipo pornhub, mas com clips super curtos. 30, 40 segundos. Se algo te captasse a atenção depois tentavas sacar os filmes inteiros.

eMule

Era o que se usava para sacar merdas. Basicamente, colocavas um filme a sacar hoje, com alguma sorte para a semana estava completo. Mas isto já é mais recente. Em Portugal usou-se muito entre 2004 e 2006. Nos anos 90 e inicios de 2000 não se costumava sacar cenas. Ocasionalmente alguém partilhava um video num chat ou fórum para um evento ou algo assim, mas pouco mais. Acredito que houvesse forma de se sacar, mas não era comum. Em vez de filmes no disco rigido, tinhas um porta cd's cheio de filmes e pornografia.

Chats Clix e Terravista

Entre finais de anos 90 e inicios de 2000's era o que estava a dar. Não tinhas de te registar, e havia sempre umas centenas de pessoas prontas a conversar. Podias ser uma pessoa diferente todos os dias. O conceito de "catfish" não existia, pois catfishing era a norma. Era bom para o engate e conversas porcas. Proporcionava-nos uma sensação de liberdade. Na altura era tudo muito menos controlado. Não tinhas problemas legais com o que dizias e fazias na net, e nem sequer eras banido. Dificilmente te baniriam do Terravista. Era agradável, mas todos os dias havia alguém que entrava só para dizer algo tipo: "SEUS FILHOS DA PUTA!!!!!!!!!!!!! VÃO PO CARALHO QUE VOS FODA". E como não era banido, ficavas a ver uma conversa amena sobre cursos universitários e lá pelo meio um troll que não parava de insultar toda a gente. Tipo:
User A: Então, e que curso queres tirar?
User B: Estou a pensar em psicologia
Troll: QUANDO EU TE VIOLAR TU É QUE VAIS PRECISAR DE PSICÓLOGO!!!!!!!
User A: Também gosto muito. A minha irmã tirou o mesmo curso. Para que universidade vais?
Troll: ELA VAI PRA UNIVERSIDADE DAS PUTAS AMESTRADAS!!!!
User B: Em princípio universidade do porto. E tu?
Troll: VAIS-TE PROSTITUIR À PORTA DA UNIVERSIDADE DO PORTO, SUA VACALHONA!!
User A: Eu vou para a universidade de Évora

E isto podia arrastar-se durante horas. Era o pão nosso de cada dia.

A primeira vez que falei com alguém online foi no chat de clix. Quando disse "Olá" e do outro lado recebi um "Olá", nem queria acreditar. Fiquei super entusiasmado e respondi "CHUPA-ME O CARALHO, SUA PUTA!". Não fiquem chocados. Eram outros tempos.

Internet Relay Chat

O IRC foi o peso pesado da internet tuga entre 97 e 2005. Era onde existia a maior concentração de Portugueses ao mesmo tempo. Cerca de 30 mil online durante a noite. Era uma rede de chats, com canais sobre praticamente todos os temas. De certa forma era muito semelhante ao reddit, uma vez que qualquer pessoa podia criar o seu próprio canal e tentar torná-lo popular. Depois escolhia os moderadores para o seu canal.
Uma cena interessante do IRC era que poder falar com pessoas online ainda era o primeiro atrativo. A cultura da devassa da vida privada ainda não existia, e o pessoal não andava desesperado por popularidade. A excitação estava em poderes comunicar com desconhecidos. Era uma cena nova, revolucionária. E como não tínhamos o dia todo para estar na internet tentava-se tirar o máximo partido.
Um termo que já foi muito popular, mas agora raramente se usa, é o "blind date". Basicamente, entravas, metias conversa com uma gaja, perguntavas de onde ela tecla e marcavas um encontro para amanhã. Quase sempre sem troca de fotografias. Isto hoje em não acontece.
Foi no IRC que conheci as minhas primeiras namoradas. Nessa altura ainda havia romance online, pois era novidade. Hoje em dia está demasiado banalizado. Já toda a gente experimentou tudo toneladas de vezes e as pessoas tendem a ficar-se mais pelos seus círculos sociais reais, em vez de se aventurarem com desconhecidos.
O IRC era vida. Era tipo guerra dos tronos. Lembro-me de ter feito chantagem com o dono de um canal para ele me passar a administração. Ele fundou o canal, mas eu é que o tornei popular. Ele esteve ausente uns meses, e quando voltou começou a querer impor as ideias dele, e eu fiquei a odiá-lo. Um dia recebi notificação que ele estava online, mas não no nosso canal. Fui ver em que canal ele estava e era o #gayengates. Fiz print e depois fiz chantagem. Tornei-me no lider absoluto do canal. Bons tempos.
No inicio da era da banda larga, como não havia muito para fazer, o comum era o pessoal usar a internet só mesmo para IRC. Basicamente, era só o que fazias. Sempre ligado. Mesmo quando desligavas, podias deixar uma shell do teu nick sempre on, registando todas as conversas. Se soubesses mirc scripting podias até criar bots. Utilizadores fantasmas que estavam sempre on e executavam comandos. Por exemplo, podias escrever, no geral, !tempo, e ele dizia-te o tempo. Ou então !ban zetoy, e ele bania o zé. Era fascinante estar num canal com centenas de pessoas a madrugada toda a trocar mensagens. Mais uma vez, tal e qual como o Reddit. A diferença é que era formato de chat, não de fórum.
Nesta época os chats clix e terravista também eram muito populares, mas o pessoal do IRC era uma beca snob para com o do clix e terravista, pois os do clix e terravista eram os incautos, que nem sabiam o que o IRC era. Eram os chats dos pobrezinhos. IRC era para quem já sabia um bocadinho mais de tecnologia, uma vez que exigia que conhecesses alguns comandos.
O servidor mais popular em Portugal é a PTnet. Já quase ninguém usa isto, sem ser gays. No estrangeiro, no entanto, ainda há servidores com milhões de utilizadores, mas é uma cena mais para programadores. Basicamente, cada servidor era o seu próprio universo de IRC. Tu podias ir a qualquer servidor, mas se quisesses estar no com mais Portugueses era o PTnet.

MSN

MSN era um mensageiro, tipo Skype. O que tinha sempre on era o IRC e o MSN. Geralmente falavas com o pessoal no IRC, e depois trocavam contactos. MSN era mais pessoal. Isto em inícios de 2000. A dada altura toda a gente que tinha internet tinha MSN. Era mais popular do que IRC. Era quase o equivalente a ter whatsapp.

NETMEETING

Era basicamente para bater pivias por webcam e ver mamas. Tipo Skype, mas servia apenas para video. Quando falavas com uma gaja no IRC e querias fazer "sexo virtual", pedias-lhe o netmeeting. Isto foi ainda antes do MSN. É uma merda dos anos 90 e inicios de 2000. Acho que já ninguém usa, a menos que sejam dementes.

TUGA NINJA

Tuga Ninja foi um dos eventos mais entusiasmantes da internet nacional. Era um jogo de porrada no site da CLIX. Tinhas uma sala de chat com muita gente on e desafiavas quem quisesses para um combate. Consoante ganhavas, ias subindo no ranking. Era isso que dava pica, tentar chegar ao topo. Era muito simplório: o adversário decidia como te ia atacar, e tu tinhas de adivinhar a decisão dele e escolher a defesa. O que tornava o jogo especial era a banda sonora dos ENA PA 2000(?) e o design dos personagens, que eram todos caricaturas de diversos espectros da sociedade tuga, como é o caso de taxistas e peixeiras.

HI5

Acho que toda a gente deve conhecer o hi5, e foi quando a internet começou a apodrecer e o IRC começou a morrer, aí por volta de 2005/2006. Tornou-se na rede "mainstream" em Portugal. Mas mainstream na altura não era o mesmo que mainstream agora. Mainstream agora significa que a tua avó usa. Mainstream na altura significava que toda a gente com internet tinha. A título de curiosidade: só aí a partir de 2006 é que internet começou a ser uma coisa que toda a gente tem em casa. Lembro-me de em 2003 só eu e mais duas pessoas na minha turma termos internet em casa. E nos anos 90 então era raríssimo. Geralmente os meus colegas filhos de pais finos é que tinham net. Eu tive aí em 95 pela primeira vez.
O hi5 era muita chunga, mas dava para arranjar umas quecas. Na altura era tudo mais fácil, talvez pela escassez e pela novidade. Conheci muita gaja por aqui, mas tirando isso não há nada de bom a dizer. Era lixo. Curiosamente, o HI5 começou a morrer quando a velhada começou a usar net e a inscrever-se. Depois os jovens migraram para o FB, por volta de 2009, enquanto o HI5 ficou para o reumático. Hoje o FB começa a ser cena de velho e o IG é o alvo de migração dos mais jovens. Daqui a mais 1 anito ou dois os velhos começam a popular o IG e os jovens fogem para outra rede.

Myspace

O Myspace marca a era de ouro das redes sociais. E foi uma era muito curta. Digo de ouro porque ainda não eram bem o cancro que são hoje em dia, e nenhuma rede social dominava TUDO, como acontece com o FB. Na verdade, as pessoas estavam espalhadas por diversas redes sociais, e cada rede tinha uma demografia específica. Também exibiam-se muito menos. Não era fotos nova todos os dias. Frequentemente era apenas uma foto de perfil.
Uma das particularidades do Myspace é que era muito voltado para música. Era a rede que os artistas utilizavam, e podias segui-los. Era uma rede mais "cool", digamos assim.
O Myspace ganhou popularidade em Portugal aí em 2006, e começou a morrer aí em 2009. Não era tão popular quanto o Hi5, mas a demografia era mais interessante. Basicamente, hi5 = tudo quanto é merda e Myspace = pessoal mais interessante, mais dado às artes e intelectualidade. Foi no Myspace que conheci as miúdas mais interessantes da minha vida. Não havia tantas, mas geralmente tinham mais conteúdo. Eram as gajas com quem podias falar de música e cinema.
Nesta época as redes sociais tinham um grau de popularidade perfeito: havia gente suficiente para teres com quem interagir, mas não ao ponto de até a tua avó e o periquito dela estarem presentes. Podias participar sem ter necessariamente de ter todas as pessoas da tua vida adicionadas. Era uma cena mais anónima.

Netjovens

O Netjovens é um bocado mais obscuro, mas durante um curto período gozou de um bom nível de popularidade em Portugal. Penso que o auge foi em 2007, depois foi vendido por 1 milhão de euros. Era uma rede tuga, criada por um só gajo num curto espaço de tempo, e até há uma reportagem sobre a venda:
https://www.youtube.com/watch?v=URJ1-buuScs
Como disse, antes de 2010 as pessoas estavam muito dispersas por diversas redes sociais. Não havia uma força dominante, e tu ias a diversos sites, para diversos tipos de demografia e conversa. O Netjovens era estilo HI5, mas um bocado mais interessante e menos popular. Não tão bom quanto Myspace, mas era mais uma plataforma de caça. Sim, as redes sociais até 2010 serviam para o engate. Era basicamente isso. Agora servem para a auto-promoção.
Confesso que não sei bem o propósito da venda do Netjovens. Que saiba o site morreu. Portanto quem pagou 1 milhão pelo mesmo não sei bem o que dele retirou.

Netlog

Da mesma era do do Netjovens, mas mais chunga. Mais uma vez, era para o engate. Tinha bue jogos, por isso até dava para um gajo se divertir. A qualidade demográfica era semelhante à do hi5, mas menos popular. Destacava-se por ter bue funcionalidades de entretenimento que o hi5 não tinha.

E pronto, depois disto é basicamente o que se vê hoje em dia: FB, Twitter, IG, TikTok. Aquilo que vocês já todos conhecem. A nível profissional tens mais oportunidades, mas no que toca a socialização as novas redes são piores a todos os níveis. Servem para engrandecimento do ego e pouco mais. Perdeu-se a componente da descoberta e interacção social.

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